A importância de ser-se Susana

Depois de me ter queixado da falta e saudades do meu seio familiar, chegou a vez, em boa consciência, de me vangloriar da importância da minha presença nessa mesma casa e escrever aqui, em letras garrafais, que acho UM PERFEITO ESCÂNDALO NINGUÉM CHORAR A MINHA AUSÊNCIA!
Fá-lo-ei em breves linhas:
1 – A minha velha cadela Yupi (17 anos), andava com uma comichão doida na boca, escafiando violentamente os seus bigodes e já tendo inclusive uma ferida (situação comentada telefonicamente pela minha mãe).
2- A minha mãe volta-me a ligar e reporta-me orgulhosa e freneticamente que o lambão do veterinário queria cobrar-lhe 30 euros para observar o cão , mas ela foi muito mais esperta e dirigiu-se à loja das rações dos animais.
eu fico calada a ouvir o seguimento do monólogo
3- Depois, a minha mãe diz-me que a senhora das rações a informou que aquela ferida derivava certamente das gânfias do animal, e que, naturalmente, as devia cortar e na ferida aplicar uma pomada de bactericida que aquilo passava rápido. Aconselhou-a ainda a comprar o amoroso abajour para cabeças de cão (os chamados colares isabelinos). A minha mãe declina educadamente dizendo que o meu pai faria um.
4 – Custo do incidente canino: 5 euros pela pomadinha (o meu pai fez literalmente um abajour de um garrafão de azeite e prendeu-o com um atacador) . Mãe orgulhosa desliga o telefonema ainda a blafesmar contra o judeu do veterinário.
5 – Mãe volta a ligar, ligeiramente preocupada, dizendo que o cão andava um pouco abatido, mas que devia ser da vergonha do abajour (o facto de ser uma anciã dá-lhe um certo estatuto nos cães cá da rua).
6 – Mãe liga no dia seguinte, aflorando o isolamento persistente do cão, e mencionando, inclusive, o aspecto um pouco fungoso (palavras dela) da ferida.
6 – Vou finalmente a casa.
7 – O cão tem, objectivamente, metade da cara podre.


8 – Histérica, obrigo-a a ir ao veterinário.
9 – Cão sujeito imediatamente a intervenção cirúrgica no Hospital Veterinário do Restelo, para extirpação de um abcesso de um dente que já lhe estava a carcomer as entranhas.
10 – Custo total do incidente: 350 euros da cirurgia, mais 50 de consultas, mais 45 de medicamentos, mais os 5 da pomada da estúpida da mulher das rações.
11 – Ri-me sadicamente para a minha mãe. Tudo teria sido evitado se eu estivesse em cssa porque, aparentemente, eu sou a única pessoa normal que nela habitava. Ter-se-ia pago a consulta inicial do veterinário (30 euros), que facilmente lhe administraria um antibiótico e anti-inflamatório.
Percebo no olhar da Yupi que ficou muito fragilizada com a situação. Não pela ferida (mais focinho, menos focinho, tanto se lhe dá). Mas pela facto da minha mãe, no fundo, a sua mãe também!, não só ser uma grande avara como completa e absolutamente alienada.
Faltava lá eu e todos reconheceram a preciosidade da minha presença. Acho que a minha existência terrena é, simplesmente, um profundo milagre.
Partilha-me toda, eu gosto

16 comentários em “A importância de ser-se Susana

  1. Olha… penso o mesmo!
    Um dia destes apanhei os meus pais a NAMORAR e senti-me constrangida… nem se lembravam que eu estava em casa…
    E eu sem gajo…

  2. Houve um faraó qualquer que morreu por causa de um abcesso num dente.

    Se calhar não era pior começares a construir uma pirâmide…

  3. Só tenho duas coisas a dizer:
    1º já tinha saudades de ler coisas suas, que gosto imenso deste blog.
    2ª Acho que nunca mais deves ficar doente ao pé da tua mãe, ou ainda te arriscas a uma cura milagrosa xD.
    Ah, e as melhoras para a Yupi

  4. É mesmo da importância de se ser Susana. Uma Susana na casa muda tudo. E deixa lá, que cá por casa também não sentem muita a minha falta. 😉

    As melhoras para a anciã.

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